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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Prática de uma religião




Pessoas que vêm a centros Zen com frequência estão perturbadas por suas experiências anteriores com religião. O significado original da palavra “religião” é interessante: vem do latim “religare”, que significa “ligar novamente, ligar homem e os deuses”. [...]
O que estamos ligando? Antes de tudo, ligamos nosso ser a ele mesmo — porque até dentro de nós mesmos estamos separados. E nos ligamos aos outros; e, eventualmente, a todas as coisas, sencientes e não sencientes. E ligamos os outros aos outros. Tudo que não estiver ligado é nossa responsabilidade. Mas na maior parte do tempo nossa tarefa é nos ligar ao nosso colega de quarto, ao nosso trabalho, nosso companheiro(a), filho ou amigo, e então nos ligar ao Sri Lanka, ao México, a todas as coisas neste mundo e neste universo.
Ah, isso soa bem! Mas na verdade não vemos com frequência a vida dessa maneira. [...] As pessoas sempre me perguntam: se essa unidade fundamental é o estado real das coisas, por que quase nunca é vista? Não é por falta de dados científicos; conheço muitos físicos que têm o conhecimento intelectual, mas o modo como lidam com a vida não reflete esse conhecimento.
A causa principal da barreira, e o motivo principal porque falhamos em ver aquilo que já é, é nosso medo de sermos machucados por aquilo que parece separado de nós. [...] É triste, mas alguns de nós morrem sem ter vivido, porque estamos obcecados em tentar não nos machucar. [...]
Se realmente quisermos ver a unidade fundamental, não apenas uma vez, mas na maior parte do tempo — que é o que a vida religiosa é — nossa prática primária [...] é com a chamada “barreira do pensamento-emoção”. Significa que quando algo parece nos ameaçar, reagimos. No minuto que reagimos, surge uma barreira e nossa visão fica nublada. Como a maioria de nós reage a cada cinco minutos, é óbvio que na maior parte do tempo a vida está nublada para nós. [...] Nossa prática primária é com essa barreira. Sem essa prática, sem compreensão sobre tudo que entra e sai das barreiras que construímos — o que não é fácil — permanecemos escravizados e separados.
[...] mas quando não há sujeito ou objeto, a barreira do pensamento-emoção cai e pela primeira vez podemos ver claramente. Quando podemos ver, sabemos o que fazer. E o que faremos será amor e compaixão. A vida religiosa pode ser vivida.
Enquanto não nos sentirmos abertos e amáveis, nossa prática está ali nos esperando, e já que na maior parte do tempo não nos sentimos abertos e amáveis, devemos praticar meticulosamente. Essa é a vida religiosa; isso é que é “religião” — embora não precisemos usar tais palavras. É a reconciliação das pessoas e seus conceitos separados, a reconciliação de nossos pontos de vista sobre como deve ser, como as pessoas devem ser, a reconciliação com nossos medos. A reconciliação de tudo que é experiência… de quê? De Deus? Daquilo que simplesmente é? A vida religiosa é um processo de reconciliação, segundo a segundo.
E cada vez que atravessamos essa barreira algo muda dentro de nós. Com o tempo nos tornamos menos separados. E isso não é fácil, porque queremos nos agarrar ao que é familiar: ser separado, ser superior ou inferior, ser “alguém” na relação com o mundo. Uma das marcas da prática séria é estar alerta e reconhecer quando a separação está ocorrendo. No minuto em que surgir a ideia — mesmo que só de passagem — de julgar outra pessoa, a luz vermelha da prática deve acender.
Todos fazemos algumas ações danosas de que não temos consciência. Mas quanto mais praticarmos, mais veremos aquilo que antes não podíamos ver. Isso não significa que iremos ver tudo — sempre há algo que não podemos ver. E isso não é bom nem ruim; é apenas a natureza das coisas.
Então prática não é só vir a retiros ou meditar toda manhã. Isso é importante, mas não suficiente. A força de nossa prática, e a habilidade de comunicá-la aos outros, depende de sermos nós mesmos. Não precisamos tentar ensinar os outros. Não precisamos dizer uma única palavra. Se nossa prática for forte ela se mostra o tempo todo. Não precisamos falar sobre o Dharma; o Dharma é simplesmente aquilo que somos.

sábado, 27 de agosto de 2011

Contar com a vida



Começamos a aprender que há apenas uma coisa na vida com a qual podemos contar. Com o que podemos contar? Poderíamos dizer: “Posso contar com meu parceiro(a)”. Podemos amar nossos maridos e esposas; mas jamais poderíamos depender completamente deles, porque uma outra pessoa (como nós mesmos) é sempre, de alguma maneira, não confiável.
Não há pessoa na terra com quem podemos contar completamente, embora possamos certamente amar e apreciar os outros. No que então podemos confiar? Se não é uma pessoa, o que é? Com o que podemos contar na vida? Perguntei isso a alguém e ela disse: “Comigo mesma”. Você pode contar consigo mesma? Depender de si é bom, mas é inevitavelmente limitado.
Há uma coisa que você pode sempre contar: que a vida seja como ela é. Vamos falar mais concretamente. Suponha que há alguém que eu queira demais; talvez queira casar com tal pessoa, ou obter um diploma avançado, ou que meus filhos sejam saudáveis e felizes. Mas a vida como ela é pode ser exatamente o oposto daquilo que desejo.
Não sabemos se vamos casar com tal pessoa. Se casarmos, ela pode morrer amanhã. Podemos ou não conseguir nosso diploma. Provavelmente conseguiremos, mas não podemos contar com isso — não podemos contar com nada. A vida sempre vai ser do jeito que é. Então por que não podemos contar com isso? O que há de tão difícil aí? Por que estamos sempre desconfortáveis? Imagine que sua casa acabou de ser destruída por um terremoto, e você está prestes a perder seu braço e todas suas economias. Você pode contar com a vida como ela é? Poderia fazer isso?
Confiar nas coisas como elas são é o segredo da vida. Mas não queremos ouvir isso. Posso confiar absolutamente que no ano que vem minha vida mudará, será diferente, apenas exatamente do jeito que é. Se amanhã eu tiver um ataque cardíaco, posso contar com isso, porque se eu tiver, terei. Posso repousar na vida como ela é.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Casa Arrumada



Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas...
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida...
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto...
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos...
Netos, pros vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.




quarta-feira, 13 de julho de 2011

Renunciar ao apego, não ao mundo



Como um seguidor de Sidarta [Buda], você não precisa imitar cada ação dele — não precisa fugir enquanto sua esposa está dormindo. Muitas pessoas pensam que o budismo é sinônimo de renúncia, deixar a casa, família e emprego para trás para seguir o caminho de um asceta.
Essa imagem de austeridade se deve em parte ao fato de que muitos budistas reverenciam os que mendigam, nos textos e ensinamentos budistas, assim como cristãos admiram São Francisco de Assis. Não podemos deixar de nos comover com a imagem de Buda andando descalço em Magadha com sua tigela de mendigar, ou Milarepa em sua caverna vivendo de sopa de urtigas. A serenidade de um simples monge birmanês aceitando esmolas cativa nossa imaginação.
Mas há também um tipo totalmente diferente de seguidor de Buda: o Rei Ashoka, por exemplo, que desceu de sua carruagem real, adornado com pérolas e ouro, e proclamou seu desejo de disseminar o Buda Dharma pelo mundo. Ele ajoelhou, pegou um punhado de areia, e jurou que construiria tantas estupas quanto havia grãos de areia em sua mão. E, de fato, cumpriu a promessa.
Então, a pessoa pode ser um rei, comerciante, prostituta, viciado ou presidente de empresa e ainda assim aceitar os quatro selos*. Fundamentalmente, não é o ato de deixar o mundo material para trás que budistas valorizam, mas a habilidade de ver o apego habitual a este mundo e a nós mesmos e renunciar ao apego.
* quatro selos:
Todas as coisas compostas são impermanentes
Todas as emoções são dolorosas
Todas as coisas não têm existência própria
O nirvana está além dos conceitos

Psicologia Dialética: Simbiose no casamento


Simbiose no casamento

Adriana Tanese Nogueira

A simbiose é um conceito que pertence à biologia, e denota a associação entre dois seres que beneficia a ambos; melhor, ambos seres precisam de tal associação para continuarem vivos e produtivos. Já dá para entender como esse conceito é transportado para as relações de casal: os dois não conseguem viver um sem o outro. 

Vamos começar fazendo algumas distinções. Toda relação se constrói a partir de uma "troca" que pode parecer e, muitas vezes, é simbiótica: pais e filhos, amigos, casais e até empresas, grupos e assim em diante. Se estamos num relacionamento é porque ele nos dá algo de importante. Que esse "algo" nem sempre seja saudável são outros quinhentos. Para o sistema mental da pessoa, para seus hábitos, medos e limites, a vantagem se apresenta de alguma forma como superior aos riscos que uma possível mudança traria.
Na relação entre pais e filhos, onde aparentemente, os filhos são os que ganham mais, é bom lembrar do espaço gigantesco que estes ocupam na vida e no coração de seus pais. Além de responsabilidades e problemas, crianças oportunizam adultos que, talvez nunca teriam essa chance, de se sentirem importantes,  de estar "acima" de alguém - se amor e crescimento recíproco não fossem suficientes.

Uma segunda noção que precisamos esclarecer é a idéia de que quando se ama de verdade se tende a "não poder viver sem a outra pessoa". A atração sexual ou aquela íntima e profunda cria uma tamanha sinergia de forças que duas pessoas podem superar muitos obstáculos para estarem juntas. Por outro lado, porém, faz parte das qualidades do amor dar a força para aguentar a distância, quando ela for necessária. Distanciamento físico ou emocional podem marcar alguns momentos da relação amorosa. Porque ninguém é pronto e resolvido e  porque a vida é imperfeita, amar não equivale a ter sempre momentos agradáveis e cheios de compreensão recíproca. Portanto, o "não posso viver sem você" do pique do amor romântico é um modo de dizer que tem valor num plano simbólico, enquanto que no concreto deve fazer lugar à maduridade de saber lidar com altos e baixos e com as contradições.

O casamento simbiótico é algo diferente. Ele é o resultado, geralmente, da união entre duas pessoas durante sua juventude, quando sua referência à família de origem e, sobretudo, às feridas e faltas que esta lhes deixou estão ainda fortemente gravadas na alma, gerando anseio por preenchimento. Os pombinhos inicialmente tendem a repetir o padrão mamãe-papai, prova é que há casais que chamam uns aos outros "filho" e "filha". Se o padrão de base das relaçãoes entre homens e mulheres é o do pai-filha e o da mãe-filho, nos casais simbióticos esse modelo é levado ao extremo, e literalmente os dois não sabem estar sem o outro. Falta-lhe autonomia e independência.

A ausência de autonomia é a incapacidade de realizar atividades próprias à personalidade de cada um, e tomar escolhas que dizem respeito aos gostos de cada indivíduo. A individualidade lentamente se eclipsa e os dois formam um todo informe no qual não se distingue mais quem é quem. Se a autonmia é a capacidade de fazer coisas sozinhos, independência é aquela de ter iniciativa por si próprios. A pessoa independente não pede permissão para fazer o que sente vontade e é importante para ela. Ela própria se autoriza, seguindo seus instintos e pensamentos. No casal simbiótico, esses dois aspectos essenciais para o desenvolvimento saudável do ser humano se perdem, ou são sufocados.

O casal simbiótico é como um indivíduo com duas cabeças mas um corpo só. Mentalmente, eles continuam se sentindo diferentes um do outro, sabem reconhecer perfeitamente as falhas e qualidades de cada um, os hábitos e preferências. Mas, por baixo dessa camada consciente, existe o emaranhado de sentimentos inconscientes que eles partilham e os amarram.

O nó da meada é que eles sua união é funcional à cada um conseguir ir adiante na vida. Psicologicamente falando, uma série de projeções foi realizada sobre o outro, investindo não só sua função (por ex., trazer dinheiro para casa ou cuidar da casa), mas um nível mais profundo. O outro representa um pedaço de si, ou vários pedaços de si, ocupando um lugar tamanho e de tal relevo na vida psicológica da pessoa que, no bem ou no mal, ela não consegue fazer sem.

O problema dessa situação é que não conta com as mudanças. Apesar de tudo, a força evolutiva do ser humano é fenomenal. Nada permance igual e tudo muda. Mudamos, queiramos ou não. Mesmo numa situação psicologicamente amputada, como a do casal simbiótico, a pressão interna na direção da individuação (que implica necessariamente em maior autonomia e independência) insiste e perturba. Aquele dos dois que está "para trás", aquele no qual este processo está mais sufocado, começa a se sentir inseguro e ansioso. Aquele que está "para frente", no qual a pressão interna tem mais via livre (geralmente de forma totalmente inconsciente), sentir-se-á "sufocado" pelo modelo de relação na qual está.

A vontade interna de novas experiências vai crescendo inexoravelmente. É como um cavalo jovem, cheio de vida e relinchando, desejoso de poder galopar livre pelas pradarias. Na falta da liberdade verdadeira, que só viria evoluindo para fora desse modelo de relação, duas coisas podem ocorrer: sufoca-se mais energicamente o espírito de liberdade, inclusive com a ajuda de remédios ansiogênicos e calmantes; ou se encontra essa autonomia de forma escondida e nos espaços mais ilícitos, como traições pelos cantos, mentiras e subterfúgios.

Transformar uma situação dessa para melhor é complicado porque toda e qualquer mudança é percebida pelo casal simbiótico como ameaçadora. É como dividir gêmeos siameses, grudados pelo corpo. Há o risco da morte, que no caso do casal simbiótico é o risco de matar a relação, ou o impulso evolutivo que exige que ela seja renovada e, com ele, aniquiliar a individuação de cada um. Entretanto, adiar o processo de mudança, uma vez que as sementes já foram postas, na forma de insegurança, ansiedade, desconfiança e mentiras, promete um futuro sombrio.

O paradoxo desse tipo de relação é foi justamente graças à simbiose que ambos os indivíduos cresceram como pessoas ao ponto de sentirem agora a necessidade interior de ir além. É por causa da simbiose que hoje cada um têm condições de poder ir adiante sem ela. O tempo está maduro, é hora de virar gente grande.